Não podíamos chegar a estas datas sem a receita dos Hot Cross Buns, estes deliciosos pãezinhos típicos da Páscoa, recheados com passas e marcados com essa cruz que os torna tão reconhecíveis, tão bonitos e tão tentadores. A verdade é que há muitas histórias à volta deles; Rosa (autora de Pemberley Cup&Cakes) conta-nos algumas delas — vão ver como são bonitas! — e traz-nos esta deliciosa receita para que também os possa fazer em casa. Uma Páscoa muito feliz!

Tenho de vos dizer que, desta vez, me dá um gosto especial trazer-vos esta receita e poder assim partilhá-la convosco. Os hot cross buns, para quem ainda não os conhece, são uns pãezinhos tenros e especiados, ligeiramente doces, enriquecidos com passas e coroados com uma marca característica em forma de cruz na parte superior. Trata-se de uma receita tradicional da cozinha britânica, típica da Páscoa, que se consome habitualmente e, desde tempos imemoriais, ao pequeno-almoço da Sexta-feira Santa. Mas não fica por aqui.

Como acontece com a maioria das receitas com história, existem hoje várias versões que tentam explicar a sua origem. Uma das mais populares remete para o costume de um monge anglicano do século XII que começou a marcar com uma cruz os pãezinhos que cozia para celebrar a Sexta-feira Santa. Outros defendem que esta cruz inconfundível não tem relação com o cristianismo, mas que remonta à cultura celta e representa a interseção da terra com o céu, do humano com o divino. Já se disse até que simboliza os quatro elementos da natureza (terra, fogo, água e ar) e até as quatro fases da lua.

Como curiosidade — adoro estas coisas —, a rainha Elizabeth I promulgou um decreto no ano de 1592 que proibia a sua venda para além da Sexta-feira Santa, em funerais ou pelo Natal (alguns dizem que com a intenção de travar as referências católicas, outros para que as suas supostas propriedades curativas ou benéficas não se esgotassem com o uso abusivo). Se alguém fosse apanhado a ignorar esta medida, era obrigado a doar todos os seus pãezinhos “ilegais” aos pobres. Assim, as pessoas habituaram-se a fazê-los em casa. Mas a sua popularidade só aumentou e a lei foi cada vez mais difícil de aplicar, pelo que acabou por ser revogada. Hoje em dia, estão à venda durante todo o ano.

Seja qual for a sua origem, simbologia ou percalços, estes hot cross buns deram origem, desde sempre, a toda uma série de superstições e lendas, como a de que os pãezinhos cozidos no dia de Sexta-feira Santa se mantêm frescos durante todo o ano, ou que, se forem pendurados na cozinha, protegerão a casa de maus espíritos e incêndios. Os marinheiros costumavam levá-los consigo ao embarcar para que os protegessem de naufrágios e até os camponeses os escondiam entre as colheitas para afastar os ratos e outras pragas. Acredita-se também que partilhar um destes pãezinhos com uma pessoa querida assegura uma boa relação durante um ano inteiro.

Uma vez devidamente apresentados, creio que já é hora de vos deixar com a receita destes emblemáticos hot cross buns, baseada na de um dos padeiros britânicos mais seguidos e venerados da atualidade, Paul Merry. Espero mesmo que os disfrutem!

Suporte de porcelana Laura Ashley, panos de cozinha Laura Ashley, cafeteira Chemex, chávenas de espresso Le Creuset e pratos de porcelana Laura Ashley

Ingredientes (para 15 buns)

Todos os ingredientes devem estar à temperatura ambiente, salvo indicação em contrário.

Para a massa fermentada:

  • 280gr de leite
  • 14 g de fermento fresco (ou 4,5 g de fermento seco)
  • 120gr de farinha de força

Para a massa dos buns:

  • 70gr de passas (eu usei sultanas)
  • Vinho doce ou rum, para demolhar as passas
  • 25gr de casca de laranja cristalizada, em pedacinhos pequenos (opcional)
  • A massa fermentada anterior
  • 400gr de farinha de força
  • 1 ovo (L)
  • 45gr de açúcar
  • ½ colher de chá de sal
  • 15gr (3 colheres de chá) de mistura de especiarias*
  • 65gr de manteiga
  • 1 ovo + 1 colher de chá de leite, para pincelar

Para as cruzes:

  • 75gr de farinha de força
  • 60-75ml de água fria

Para pincelar (opcional):

Preparação

Da massa fermentada

  1. Num recipiente grande (como este de vidro da Mediterránea, no qual também fiz a amassadura posterior) misturamos todos os ingredientes da massa fermentada até obter uma textura suave e sem grumos.
  2. Cobrimos com película aderente e deixamos fermentar durante cerca de 45 – 60 minutos ou até adquirir uma textura leve e fofinha (ver-se-ão pequenas bolhas à superfície).

Da massa dos buns

  1. Para começar, colocamos as passas (e a casca de laranja cristalizada picada, se a formos adicionar) de molho no licor num recipiente pequeno e reservamos.
  2. Assim que a nossa massa fermentada estiver pronta, juntamos a farinha, o açúcar, o ovo, as especiarias e o sal e misturamos com uma espátula até ligar mais ou menos todos os ingredientes, embora a mistura ainda tenha um aspeto bastante tosco. De seguida, começamos a amassar (no mesmo recipiente, como fiz desta vez, sobre uma superfície de trabalho ou com a ajuda de uma amassadeira elétrica) até ficar tudo bem ligado; a massa ainda terá uma textura algo pegajosa.
  3. De seguida, juntamos a manteiga em várias etapas, amassando bem entre cada uma até ficar bem incorporada, e continuamos a amassar até obter uma massa suave, elástica e lisa.
  4. Em seguida, estendemos a massa com a ajuda de um rolo da massa sobre uma superfície de trabalho ligeiramente enfarinhada e espalhamos por cima as passas (e a casca de laranja cristalizada, se for o caso), bem escorridas; dobramos a massa sobre si própria com a fruta no interior e amassamos novamente até que esta fique bem integrada e distribuída por toda a massa.
  5. Por fim, formamos uma bola e colocamos num recipiente untado com uma fina película de óleo (de girassol, por exemplo, que não acrescenta sabor). Cobrimos com película aderente e deixamos levedar num local quente e afastado de correntes de ar até duplicar o volume inicial, o que pode demorar cerca de 1 – 1 ½ horas aprox.
  6. Depois de a nossa massa ter levedado, dividimo-la com a ajuda de uma faca grande e bem afiada ou de um raspador de pasteleiro em 15 porções iguais (a mim saíram-me cerca de 65gr aprox.; seria muito útil ter aqui também uma balança de cozinha). De seguida, moldamos cada um dos pãezinhos, enrolando bem cada porção até a superfície da massa ficar lisa e uniforme.
  7. Colocamos então os buns já formados num tabuleiro antiaderente De Buyer, deixando uma separação mínima entre eles, de forma a que se unam posteriormente ao crescer.
  8. Pré-aquecemos o forno (elétrico e sem ventilação) a 190ºC e colocamos a grelha na posição central.
  9. Entretanto, preparamos a pasta para fazer as cruzes, para o que combinaremos a farinha com a água fria num recipiente. Deve ficar uma pasta homogénea e bastante espessa, embora flexível; por isso, começaremos por adicionar a água aos poucos até atingir a consistência desejada.
  10. Assim que os nossos buns tiverem crescido visivelmente (não é necessário que dobrem novamente o volume), pincelamos com a mistura de ovo e leite com um pincel de pastelaria e fazemos as cruzes com a ajuda de um saco de pasteleiro.
  11. Colocamos o tabuleiro com os buns no forno e cozemos durante cerca de 18-20 minutos até adquirirem uma bonita tonalidade dourada à superfície.
  12. Mal os retiramos do forno, pincelamo-los desta vez com um pouco de compota de pêssego (previamente aquecida) para lhes dar brilho e deixamos arrefecer sobre uma grelha.

Tigela de vidro Mediterránea, descanso de colher em cerâmica Le Creuset e jarra medidora Kitchen Craft

Recomendo-vos que os comam ainda mornos ou, em alternativa, abertos ao meio, tostados e barrados com um pouco de manteiga. O primeiro dia é o melhor para saborear uns hot cross buns muito tenros e perfumados, mas ainda assim mantêm boa parte da sua maciez durante mais uns dois dias, se forem guardados à temperatura ambiente e bem protegidos do ar (embora convém dar-lhes um toque de calor antes de consumir após o primeiro dia para renovar a sua maciez).

Notas

  • *Para preparar a tua própria mistura de especiarias caseira, basta combinar, por exemplo: 1 parte de canela em pó + ¼ parte de noz-moscada em pó + ¼ parte de gengibre em pó + ¼ parte de cardamomo em pó + parte de cravinho em pó. Ainda assim, podes ajustar as proporções ou a seleção de especiarias ao teu gosto pessoal.
  • Em vez de compota de pêssego, podes usar golden syrup (também quente) para lhes dar esse toque final de brilho (atenção porque, quente, o golden syrup pode queimar bastante).
  • No caso de utilizares um tabuleiro convencional para cozer os teus hot cross buns, lembra-te de revestir a base com papel vegetal para forno.
  • Se os tempos de levedação não encaixarem na tua previsão (por exemplo, se quiseres tomar ao pequeno-almoço uns bons hot cross buns acabados de cozer de manhã), podes começar o processo na tarde do dia anterior e fazer a penúltima levedação (depois de incorporar as passas na massa) no frigorífico durante toda a noite. Logo de manhã, retiras a massa do frigorífico, deixas que aclimate um pouco, dás forma aos teus buns e deixas levedar novamente até crescerem (é muito provável que, seguindo esta orientação, esta levedação demore um pouco mais).

Tabuleiro antiaderente De Buyer, suporte de porcelana Laura Ashley, cafeteira Chemex e pratos de porcelana Laura Ashley

Um abraço,

Rosa

Comentários

Claudia disse:

Gracias a ti Elena, un saludo!

Elena disse:

Me encanta esta receta, y tan bien explicada seguro que sale. Me la guardo para probarla. Muchas gracias !!!!!

Claudia disse:

Oh sí, Yvette, no dejes de prepararla porque verás que no tiene complicación alguna! Y el resultado es espectacular!! :) Saludos

Yvette disse:

Interesante receta con sus anécdotas. En principio parece fácil de preparar. Me animaré a probarla. :-)

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Hot Cross Buns

Não podíamos chegar a esta altura sem a receita dos Hot Cross Buns, esses deliciosos pãezinhos típicos da Páscoa, recheados com passas e marcados com aquela cruz que os torna tão reconhecíveis, tão bonitos e tão tentadores. A verdade é que há muitas histórias à sua volta; a Rosa (autora de Pemberley Cup&Cakes) conta-nos algumas delas - vão ver como são bonitas! - e traz-nos esta deliciosa receita para que também os possas fazer em casa. Feliz Semana Santa!

Tenho de vos dizer que, desta vez, me dá um gosto especial trazer-vos esta receita e poder assim partilhá-la convosco. Os hot cross buns, para quem ainda não os conhece, são uns tenros pãezinhos especiados, ligeiramente doces, enriquecidos com passas e coroados com uma característica marca em forma de cruz na parte superior. Trata-se de uma receita tradicional da cozinha britânica, típica da Páscoa, que se consome habitualmente e desde tempos imemoriais ao pequeno-almoço de Sexta-Feira Santa. Mas a história não fica por aqui.

Como acontece com a maioria das receitas com história, existem hoje em dia várias versões que tentam explicar a sua origem. Uma das mais populares refere-se ao costume de um monge anglicano do século XII que começou a marcar com uma cruz os pãezinhos que cozia para celebrar a Sexta-Feira Santa. Outros defendem que esta cruz inconfundível não tem relação com o cristianismo, mas sim com a cultura celta, representando a interseção da terra com o céu, do humano com o divino. Já se disse até que simboliza os quatro elementos da natureza (terra, fogo, água e ar) e até as quatro fases da lua.

Como curiosidade — adoro estas coisas —, a rainha Elizabeth I promulgou um decreto em 1592 que proibia a sua venda fora da Sexta-Feira Santa, de funerais ou do Natal (alguns dizem que com a intenção de travar as referências católicas, outros para que as suas supostas propriedades curativas ou benéficas não se esgotassem pelo uso abusivo). Se alguém fosse apanhado a ignorar esta medida, era obrigado a doar todos os seus pãezinhos “ilegais” aos pobres. Assim, as pessoas habituaram-se a fazê-los em casa. Mas a sua popularidade não fez senão crescer e a lei tornou-se cada vez mais difícil de aplicar, pelo que acabou por ser revogada. Hoje em dia, estão à venda durante todo o ano.

Seja qual for a sua origem, simbologia ou peripécias ocorridas, estes hot cross buns deram sempre origem a toda uma série de superstições e lendas, como a de que os pãezinhos cozidos na Sexta-Feira Santa se conservam frescos durante todo o ano, ou que, se forem pendurados na cozinha, protegerão a casa de maus espíritos e incêndios. Os marinheiros costumavam levá-los consigo ao embarcar para que os protegessem dos naufrágios e até os camponeses os escondiam entre as suas colheitas para afugentar ratos e outras pragas. Também se acredita que partilhar um destes pãezinhos com uma pessoa querida assegura uma boa relação durante todo um ano.

Agora que já ficaram devidamente apresentados, creio que já está na hora de vos deixar com a receita destes emblemáticos hot cross buns, baseada na de um dos padeiros britânicos mais seguidos e venerados da atualidade, Paul Merry. Espero sinceramente que os apreciem!

Author
Claudia&Julia
Prep Time
25 minutes
Cook Time
20 minutes
Servings
15
Category

Pastelaria

Ingredients

  • 280gr de leite
  • 14 g de fermento fresco (ou 4,5 g de fermento seco)
  • 120gr de farinha de força
  • 70gr de passas (eu usei sultanas)
  • Vinho doce ou rum, para demolhar as passas
  • 25gr de casca de laranja cristalizada, em pedacinhos pequenos (opcional)
  • O prefermento anterior
  • 400gr de farinha de força
  • 1 ovo (L)
  • 45gr de açúcar
  • ½ colher de chá de sal
  • 15gr (3 colheres de chá) de mistura de especiarias*
  • 65gr de manteiga
  • 1 ovo + 1 colher de chá de leite, para pincelar
  • 75gr de farinha de força
  • 60-75ml de água fria
  • 30gr de compota de pêssego, quente

Directions

  1. Numa taça grande (como esta de vidro da Mediterránea, na qual, além disso, fiz a amassadura posterior) combinamos todos os ingredientes do prefermento até obter uma textura suave e sem grumos.
  2. Cobrimos com película aderente e deixamos fermentar durante cerca de 45 – 60 minutos ou até adquirir uma textura leve e fofa (ver-se-ão pequenas bolhas à superfície).
  3. Para começar, pomos as passas (e a casca de laranja cristalizada picada, se a formos juntar) de molho com o licor numa taça pequena e reservamos.
  4. Quando o nosso prefermento estiver pronto, juntamos a farinha, o açúcar, o ovo, as especiarias e o sal e misturamos com uma espátula até ficar tudo mais ou menos ligado, embora a mistura ainda tenha um aspeto bastante tosco. Em seguida, começamos a amassar (na mesma taça, como fiz eu desta vez, sobre uma superfície de trabalho ou com a ajuda de uma amassadeira elétrica) até que tudo fique bem ligado; a massa continuará a ter uma textura algo pegajosa.
  5. De seguida, juntamos a manteiga em várias fases, amassando bem entre cada adição até ficar bem incorporada, e continuamos a amassar até obter uma massa suave, elástica e lisa.
  6. Depois, estendemos a massa com a ajuda de um rolo sobre uma superfície de trabalho ligeiramente enfarinhada e espalhamos por cima as passas (e a casca de laranja cristalizada, se for o caso), bem escorridas; dobramos a massa sobre si mesma com a fruta no interior e amassamos de novo até esta ficar bem integrada e distribuída por toda a massa.
  7. Por fim, damos-lhe forma de bola e colocamo-la numa taça untada com uma fina película de óleo (de girassol, por exemplo, que não dá sabor). Cobrimos com película aderente e deixamos levedar num local quente e afastado de correntes de ar até duplicar o seu volume inicial, o que pode demorar cerca de 1 – 1 ½ horas.
  8. Depois de a massa ter levedado, dividimo-la com a ajuda de uma faca grande e bem afiada ou de uma raspa de padeiro em 15 porções iguais (a mim saíram-me com cerca de 65gr; além disso, aqui seria muito útil ter uma balança de cozinha). Em seguida, moldamos cada um dos pãezinhos, boleando bem cada porção até a superfície da massa ficar lisa e uniforme.
  9. Colocamos então os buns já moldados sobre um tabuleiro antiaderente da De Buyer, deixando uma separação mínima entre eles, de forma a que se unam depois ao crescer.
  10. Pré-aquecemos o forno (elétrico e sem ventilação) a 190ºC e colocamos a grelha na posição central.
  11. Entretanto, preparamos a pasta para fazer as cruzes, combinando a farinha com a água fria numa taça. Deve ficar uma pasta homogénea e bastante espessa, mas flexível; por isso, começaremos por juntar a água pouco a pouco até chegar à consistência desejada.
  12. Quando os nossos buns tiverem crescido visivelmente (não é necessário que dupliquem novamente de volume), pincelamos com a mistura de ovo e leite com um pincel de pastelaria e fazemos as cruzes com a ajuda de um saco pasteleiro.
  13. Levamos o tabuleiro com os buns ao forno e cozemos durante cerca de 18-20 minutos até ganharem um bonito tom dourado à superfície.
  14. Assim que os retirarmos do forno, pincelamo-los desta vez com um pouco de compota de pêssego (previamente aquecida) para lhes dar brilho e deixamos arrefecer sobre uma grelha.